Em 1994, o matemático Peter Shor descreveu um algoritmo capaz de fatorar números grandes em tempo viável, desde que rodasse num computador quântico. Naquele momento, computador quântico era ideia de artigo científico, e a demonstração ficou como curiosidade teórica.
Aconteceu que a criptografia que protege quase tudo o que trafega na internet corporativa hoje se apoia justamente na dificuldade de fatorar números grandes. O algoritmo de Shor não quebrou nada em 1994 porque faltava a máquina. Trinta anos depois, a máquina virou projeto de engenharia com prazo declarado.
Enquanto ela não chega, uma estratégia paciente já está em campo: harvest now, decrypt later, colher agora e decifrar depois. O atacante copia o tráfego cifrado, não tenta abrir nada e arquiva. Ele não sabe o conteúdo, e sabe que a chave tem prazo de validade. Para prontuário, contrato, projeto de engenharia, dado bancário e documento classificado, que seguem sensíveis por décadas, a conta fecha para quem tem paciência.
É por isso que a computação quântica virou pauta de segurança da informação antes de virar produto de prateleira.
Um computador tradicional trabalha com bits, que assumem zero ou um. A computação quântica usa propriedades da mecânica quântica para representar e combinar estados de outra forma, e isso lhe dá vantagem em uma classe específica de problemas.
O ponto que costuma se perder: ela não é um computador comum mais rápido. É uma máquina boa em poucos tipos de conta, e ruim ou irrelevante no resto. Onde ela rende, o ganho é grande:
Um desses tipos de conta é justamente fatorar números grandes e resolver logaritmos discretos. Fatorar número grande é o problema que sustenta boa parte da criptografia usada hoje.
A pergunta prática não é se a tecnologia existe, e sim em que estágio ela está. O campo saiu do laboratório e tem hoje roteiro público com data:
| Quem | Onde chegou | O que promete, e quando |
| IBM | Processador Nighthawk, com 120 qubits, e arquitetura modular Quantum System Two | Vantagem quântica verificada em carga útil até o fim de 2026, e o sistema Starling tolerante a falhas em 2029, com 200 qubits lógicos |
| Chip Willow, primeiro a demonstrar correção de erro abaixo do limiar em hardware real | Cada aumento na distância do código derruba o erro lógico pela metade, que é o comportamento previsto pela teoria | |
| Microsoft e Quantinuum | 12 qubits lógicos com taxa de erro lógico menor que a do hardware físico | Operação confiável o suficiente para algoritmo real, e não só demonstração |
A distinção que importa nessa tabela é entre qubit físico e qubit lógico. O físico é frágil e erra o tempo todo; o lógico é construído a partir de muitos físicos com correção de erro, e é ele que executa conta útil. Quebrar criptografia de chave pública exige milhares de qubits lógicos estáveis, e os números acima ainda estão na casa das dezenas.
O que mudou, e explica a movimentação de governos e bancos, foi a correção de erro deixar de ser promessa. Enquanto o erro crescia junto com o tamanho da máquina, escalar não adiantava. Com erro caindo conforme o sistema cresce, a barreira passou a ser engenharia e investimento, que são obstáculos com prazo.
A criptografia assimétrica protege a maior parte do que trafega na internet corporativa: sessões TLS, VPN, assinatura digital, troca de chaves entre sistemas. A segurança dela vem de uma aposta prática, a de que resolver certos problemas matemáticos levaria tempo demais com a computação disponível.
Uma máquina quântica suficientemente capaz muda essa conta em uma parte específica do arranjo, a da criptografia de chave pública. É por isso que governos, bancos e operadores de infraestrutura crítica trataram o assunto como planejamento, e não como novidade tecnológica.
O número que ilustra bem: quebrar uma chave RSA de 2048 bits por força bruta, com computação clássica, exigiria um tempo maior que a idade do universo. Essa ordem de grandeza é o que sustenta a confiança no método. O algoritmo de Shor, rodando em máquina quântica com correção de erro suficiente, reduz esse problema a uma escala tratável.
A tabela a seguir separa o que muda e o que não muda, porque a diferença entre as duas colunas é o que evita pânico desnecessário:
| Tipo de criptografia | Onde ela aparece | Efeito de um computador quântico relevante |
| Chave pública, como RSA e curvas elípticas | Troca de chaves em TLS e VPN, assinatura digital, certificados | Quebra prática, com o algoritmo de Shor |
| Chave simétrica, como AES-256 | Cifra dos dados em repouso e do túnel depois de estabelecido | Segurança reduzida pela metade, e AES-256 continua adequado |
| Funções de hash, como SHA-256 | Integridade, assinatura, senha armazenada | Redução parecida, resolvida aumentando o tamanho da saída |
A leitura correta: o problema mora na troca de chaves e na assinatura, e não na cifra em si. Sistema que hoje usa AES-256 continua adequado; o que precisa mudar é como as duas pontas combinam a chave antes de conversar.
| Momento | O que acontece |
| 1994 | Shor descreve o algoritmo de fatoração |
| 2016 | NIST abre a competição pública de criptografia pós-quântica |
| Agosto de 2024 | Saem os três primeiros padrões finalizados |
| 2026 a 2029 | Fabricantes prometem vantagem quântica verificada e as primeiras máquinas tolerantes a falhas |
| Até 2030 | RSA-2048 e ECC P-256 entram em descontinuação |
| Até 2035 | Algoritmos vulneráveis saem dos padrões |
Uma migração criptográfica corporativa costuma levar de cinco a dez anos, entre inventário, fornecedor, certificado e sistema legado. Colocando as duas coisas lado a lado, a janela que parece distante já está em curso.
O ataque de colheita da abertura explica a urgência. Ele não depende de a máquina existir hoje: depende apenas de o dado continuar valioso quando ela existir. Informação com dez, quinze ou vinte anos de vida útil já está exposta a esse cálculo.
Vale a proporção: isso não significa que a criptografia atual falhou, nem que dado protegido hoje está aberto. Significa que o prazo de validade dela passou a ser conhecido.
Duas estratégias respondem ao mesmo problema por caminhos diferentes, e a confusão entre elas é comum.
A criptografia pós-quântica, ou PQC, é um conjunto de algoritmos matemáticos projetados para resistir a ataque de computador quântico, rodando no hardware e nos protocolos que já existem. Em agosto de 2024 o NIST publicou os três primeiros padrões finalizados:
| Padrão | Algoritmo | Para que serve |
| FIPS 203 | ML-KEM | Encapsulamento de chave, substitui a troca de chaves de TLS e VPN |
| FIPS 204 | ML-DSA | Assinatura digital, o padrão principal de verificação de identidade |
| FIPS 205 | SLH-DSA | Assinatura digital baseada em hash, alternativa de segurança independente |
A criptografia quântica é outra coisa: o exemplo mais conhecido é o QKD, Quantum Key Distribution, que usa propriedades físicas das partículas para distribuir chaves: qualquer tentativa de interceptação altera o estado observado e denuncia a escuta. Ela exige infraestrutura própria, como fibra dedicada ou enlace óptico específico, e por isso aparece primeiro em cenários de altíssima criticidade.
As duas convivem, a PQC é o caminho de migração para a infraestrutura instalada, e o QKD atende a casos onde o custo de infraestrutura se justifica.
A transição não acontece com uma atualização de software. Ela atravessa certificados, bibliotecas, firmware de equipamento de rede, integrações com terceiros e sistemas legados que ninguém quer tocar.
Os prazos já estão publicados, o NIST indica a descontinuação de RSA-2048 e ECC P-256 até 2030, com a remoção dos algoritmos vulneráveis dos padrões até 2035. Para infraestrutura corporativa, uma janela de dez anos é curta.
O trabalho começa em quatro frentes, e nenhuma delas exige comprar tecnologia nova:
A empresa que fizer o inventário agora chega em 2030 com um projeto. Quem deixar para depois chega com um inventário.
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Acompanhar a evolução tecnológica faz parte da estratégia de quem mantém infraestrutura crítica no ar. A transição criptográfica entra nessa conta como projeto de longo prazo, com etapas que começam por conhecer o próprio ambiente.
A Teletex acompanha esse movimento e apoia organizações na avaliação de infraestrutura, redes corporativas e proteção de dados, conectando o que existe hoje ao que precisará mudar. Inventário criptográfico, arquitetura preparada para troca de algoritmo e modernização gradual pertencem ao mesmo trabalho de resiliência digital que sustenta a operação atual.
Investir hoje em uma estratégia preparada para o futuro reduz risco e evita migração feita sob pressão.
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